SÃO PAULO – Depois de encolher no ano passado, o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade chega a sua 25ª edição com programação ampliada, retrospectivas e filmes engajados em discussões contemporâneas, como a ascensão da extrema-direita no mundo e a difusão das fake news. O É Tudo Verdade começa no dia 26 de março, em São Paulo, e em 31 de março, no Rio – nas duas cidades, o festival se estende até 5 de abril. Ao todo, serão exibidos 83 títulos (incluindo duas séries documentais inéditas no país) em seis salas paulistanas e três cariocas. No ano passado, a programação contava com 66 filmes. Todas as sessões são gratuitas.

No Rio, a sessão de abertura ocorre no dia 30 de março, no Estação Net Botafogo 1, com a exibição de “A cordilheira dos sonhos”, do chileno Patricio Guzmán. O filme, vencedor do Olho de Ouro de Melhor Documentário no Festival de Cannes do ano passado, discute o presente chileno as luz da experiência socialista, no governo de Salvador Allende (1970-1973) e da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1970).

Cena do filme "Golpe 53", do iraniano Taghi Amirani, em cartaz no Festival É Tudo Verdade Foto: Reprodução / Divulgação Cena do filme “Golpe 53”, do iraniano Taghi Amirani, em cartaz no Festival É Tudo Verdade Foto: Reprodução / Divulgação

Em São Paulo, a abertura será no dia 25, com a projeção de “Golpe 53”, do iraniano Taghi Amirani, no Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer. O filme, descrito com um “thriller documental”, narra como, em plena Guerra Fria, Estados Unidos e Reino Unido articularam o golpe que derrubou o primeiro-ministro iraniano Taghi Amirani em 1953.

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Na apresentação da programação do festival, realizada nesta terça-feira (10), em São Paulo, o diretor do É Tudo Verdade, Amir Labaki, disse que são muitos os filmes que se esforçam para refletir sobre os dilemas políticos contemporâneos, como a ascensão dos populistas de direita, e que há na programação, inclusive, alguns documentários brasileiros interessados em entender “o Brasil de Bolsonaro”.

– Mas ainda é um pouco cedo. Documentário não é crônica, documentário é arte. Nos próximos anos, com certeza vamos ver mais esse assunto presente nas telas – afirmou. – Por outro lado, o fortalecimento do populismo de direita no mundo é anterior à eleição de Bolsonaro e, por isso, percebemos, na seleção internacional, muitos filmes que falam disso e também de fake news e uso das redes sociais para propagar discursos de ódio e antidemocráticos.

Nem toda série documental é policial

Este ano, o número de títulos brasileiros em disputa saltou de sete para dez. Segundo Labaki, isso se deu devido a um recorde de filmes inscritos e a uma “safra excepcional”. Entre os documentários concorrentes estão produções sobre os Paralamas do Sucesso e Jair Rodrigues e outras que recordam a ditadura militar, como “Fico te devendo uma carta do Brasil”, de Carol Benjamin, e “Libelu – Abaixo a ditadura”, de Diógenes Muniz. A competição internacional vai se dar entre 12 títulos de países como Líbano, República Tcheca e Argentina.

Outra novidades desta edição é a exibição de duas séries documentais inéditas no Brasil.

– Vamos mostrar que nem toda série documental é policial – disse Labaki.

As duas séries incluídas na programação são “A herança da coruja”, do francês Chris Marker (1921-2012), e “Women Make Film: um road movie através do cinema”, do britânico Mark Cousins. Narrado por atrizes como Tilda Swinton, Jane Fonda e Debra Winger, “Women Make Film” é uma série documental em cinco episódios completamente inédita que passa em revista a história do cinema ao costurar clipes de centenas de filmes dirigidos por cineastas mulheres, como a francesa Agnès Varda (1928-2019), a japonesa Kinuyo Tanaka (1909-1977) e a brasileira Petra Costa, que, este ano, disputou o Oscar com “Democracia em vertigem”, documentário sobre o impeachment de Dilma Rousseff.

A atriz Tilda Swinton Cena do filme "Women Make Film", do britânico Mark Cousins, em cartaz no Festival É Tudo Verdade Foto: Reprodução / Divulgação A atriz Tilda Swinton Cena do filme “Women Make Film”, do britânico Mark Cousins, em cartaz no Festival É Tudo Verdade Foto: Reprodução / Divulgação

Exibido pela TV francesa em 1989, “A herança da coruja” discute a influência da Grécia Antiga na formação da cultura ocidental a partir da permanência de 13 palavras de origem helênica, como “democracia” e “misoginia”. Nos 13 episódios da série, são entrevistados mais de 50 intelectuais, como o crítico literário franco-americano George Steiner (1929-2020), o filósofo grego Cornelius Castoriadis (1922-1997) e o cineasta americano Elia Kazan (1909-2003), diretor de “Sindicato de ladrões” e “Uma rua chamada pecado”.

– É um manifesto erudito e iluminista adequado para essa época em que há muita gente defendendo as sombras – disse Labaki sobre “A herança da coruja”.

A exibição das séries inéditas faz parte das celebrações dos 25 anos do festival, assim como a retrospectiva “Ano 1”, que resgata filmes projetados na primeira edição do É Tudo Verdade, em 1996. Haverá ainda uma homenagem ao cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, falecido no mês passado, aos 83 anos. Mojica fora homenageado pelo É Tudo Verdade em 2000.

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