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Artigo: Dividir para conquistar: uma história sobre a equidade de gênero

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(foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)(foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)

Quem nunca ouviu a expressão “rainha do lar” quando um homem se referia a sua esposa. Ou ainda, em uma roda de executivos, o comentário “em casa quem manda é a patroa”… Essas frases refletem a divisão de poder entre homens e mulheres que prevaleceu e, em alguns lugares, ainda prevalece em nossa sociedade nos últimos séculos. O homem ganhou espaço no mercado de trabalho, traz os recursos para a manutenção do lar, mas dentro de casa quem manda é a mulher…

Primeiro, é importante destacar que esse pretenso “mandar” é bastante limitado, pois a mulher e toda a família ficavam dependente financeiramente do homem, cabendo, então, a ele a palavra final nas decisões. O poder ficava concentrado nas mãos daquele que detinha o domínio sobre os recursos financeiros para a manutenção e sobrevivência daquele grupo.
No entanto, inclusive para justificar essa lógica, criou-se uma convenção social de divisão de poder no âmbito familiar; afinal, a última coisa que nossa sociedade desejava era ver a sua principal instituição como uma ditadura capitalista — quem detém o capital detém o poder… Assim se convencionou um reequilíbrio de forças: o homem tinha todo o mundo para conquistar, mas o lar era o espaço de dominação feminino. Enquanto a ele cabia sobrepujar barreiras da carreira, ela era a única responsável pelos afazeres domésticos e pela educação e saúde dos filhos. E assim caminhou a sociedade durante séculos.
Chegou o momento de a mulher alargar suas fronteiras para além das portas de suas casas e, lentamente, começamos a ocupar espaços no mercado de trabalho. Em um primeiro momento, em profissões a nós permitidas e nas posições auxiliares. Mulheres estavam presentes em todas as guerras da era moderna, mas nunca nos campos de batalha… Elas ficavam nas posições burocráticas ou auxiliares…. E, então, quando os heróis de guerra eram forjados, ouvia-se a mais machista das frases: “Atrás de um grande homem sempre está uma grande mulher”… Atrás, atrás, atrás…
Cansamos de estar atrás… Resolvemos estar junto com os grandes homens e — por que não? — na liderança por vezes. Mas ocupar espaços no mercado de trabalho exige tempo. São necessárias dedicação, disponibilidade para formação constante e até viagens que nos obrigam a ficar ausentes de nossas casas… E como fazer para garantir a harmonia do lar e a saúde e educação dos filhos? Como deixar o espaço que, por anos e anos, nos garantiu um papel social e até justificou nossa presença e importância? Como confiar nos homens que não foram forjados para essas tarefas (pensamento para lá de machista também!)? Muitas mulheres sofrem com essas questões. E inseguras em deixar o papel que até então dominavam, buscam se transformar em supermulheres. Querem dar a maior dedicação à carreira e estar 100% presentes na vida dos filhos. Viram, então, escravas de variados compromissos e, quando dão conta de cumpri-los, nada sobra de tempo para elas mesmas.
Super-heróis e super-heroínas só existem nas telas dos cinemas e nos roteiros de ficção, onde tudo é possível. A equidade de gênero busca a igualdade de oportunidades o que, obrigatoriamente, significa abrir espaços que até então eram exclusivos. É necessário confiar neles, nossos maridos e companheiros, para compartilhar as atribuições do lar e o bem-estar de nossos filhos. Até porque não existe nada mais incongruente do que falarmos em igualdade aplicada apenas às mulheres do que lutarmos por equidade desde que seja para ocupar o espaço do outro.
Reorganizar a vida familiar e doméstica é mister para não criar mulheres que são escravas de suas conquistas. Ao dividir atribuições e responsabilidade se contribui para que a chamada “nova masculinidade” se conecte com as dificuldades e os prazeres de conviver mais com os filhos e na construção de um discurso de igualdade vivido na prática. Não é necessário que nenhuma de nós perca o posto de “rainha do lar”, se não for esse seu desejo, mas, muito provavelmente, nesse reino também há espaço também para um rei.
*Diretora-geral do Senado federal e fundadora do Grupo Mulheres do Brasil-DF

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