Na virada do ano, aposto que ninguém está pensando no que está chegando ao catálogo da Netflix. Afinal, convenhamos, lançar uma nova produção enquanto todos estão estourando suas champanhes, celebrando e dando beijos não é exatamente a melhor forma de divulgação, e o serviço de streaming deveria ter tido uma estratégia melhor. Por esse motivo, talvez, a ótima nova série Spin Out ficou de fora do radar de muitos assinantes. Esse artigo serve para tentar corrigir esse erro.

Spin Out é uma série que gira em torno de patinação do gelo competitiva, tema que foi bem explorado no recente Eu, Tonya (filme com Margot Robbie indicado ao Oscar em 2018). Mais especificamente, acompanhamos os esforços de Kat Baker (vivida por Kaya Scodelario) para superar uma falha traumatizante no esporte, preparar-se para os novos treinos qualificadores para as Olimpíadas e outros dramas pessoais que o gênero sempre precisa comportar; especialmente uma narrativa seriada de 10 horas.

Temos um drama familiar bem estimulante entre Kat e sua mãe, vivida por uma inspirada January Jones. É o clássico cenário da artista frustrada que desconta seu fracasso nas filhas, e com Kat indo por um caminho próprio, ela pega a caçula  Serena (Willow Shields) como sua nova cobaia – e futura competidora de sua própria irmã. É um bom conflito que leva Kat a ser apadrinhada por uma excêntrica treinadora russa (a ótima Svetlana Efremova), imediatamente nos trazendo ecos de Rocky IV.

E se mencionei Eu, Tonya no começo do texto, esse conflito competitivo traz outro filme do gênero à mente: Cisne Negro. Sim, o filme estrelado por Natalie Portman é sobre balé, mas a obsessão pela perfeição que aproxima a jornada de um suspense também está em Spin Out; principalmente quando a roteirista Samantha Stratton oferece mais uma camada dramática para a história. Vamos ganhando aos poucos a revelação de que Kat sofre de um distúrbio bipolar, que afeta todas as suas ações e também daqueles ao seu redor – algo bem ilustrado pela relação com a mãe e os casos amorosos da protagonista, que parece incapaz de se apegar. É um tema difícil, mas que ganha um tratamento delicado e interessante por parte do roteiro, que também evita cair no clichê ou retrato escandaloso – e também realista.

Mas se há um elemento que realmente nos mantém investidos nas quase 10 horas de Spin Out é sua protagonista. Era exatamente esse tipo de material que Kaya Scodelario precisava para mostrar seu talento, já que é um dos nomes mais subestimados de Hollywood. Ela já havia roubado a cena como a Effy de Skins e por suas participações na franquia Maze Runner, e também se sobressaiu no divertido Predadores Assassinos, mas é aqui que a atriz (que tem descendência brasileira) mostra a que veio. Todo o carisma e esforço de Kat ficam evidentes desde sua primeira cena, e Scodelario é particularmente inspirada nos momentos mais dramáticos, especialmente nos “episódios” de bipolaridade que marcam alguns acontecimentos da narrativa.

Por mais que Scodelario obviamente não faça a maior parte das cenas envolvendo patinação, ela convence com o físico e maneirismos de uma atleta profissional. A série, inclusive, é ótima no quesito de ilustrar a beleza e os perigos do esporte: a maioria dos números e treinos de Kaya são bem retratados em planos bem abertos e bem fotografados, que ficam ainda mais envolventes graças à seleção musical que varia entre clássicos de Beethoven e Prokofiev. Em contrapartida, há pequenos momentos como a cena em que uma patinadora acidentalmente fura o próprio pé com a lâmina de um dos patins que é angustiante na medida certa.

Spin Out tem sua primeira temporada completa já na Netflix. É uma série que não teve buzz algum em sua divulgação ou lançamento, e o assinante precisa literalmente “caçar” pelo título, escondido no catálogo do streaming. Merece uma chance, já que é uma das produções mais interessantes e diferentes que a Netflix lançou recentemente.

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