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Não gostar de cachorro só não é pior do que não gostar de bebê – Por Fabrício Carpinejar

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Por Fabrício Carpinejar

Quem não gosta de cachorro jamais admite, com o receio de ser linchado e proscrito, de perder a respeitabilidade e ser bloqueado das redes sociais.

Com o objetivo de se esquivar do preconceito imperdoável, usará eufemismos sem fim. Apenas usará eufemismos, para que ninguém detecte a rejeição.

A dissimulação é questão de sobrevivência no mundo eminentemente cachorreiro. Só não é pior do que não gostar de bebê.

Já possuo o feeling de identificar a aversão canina, feita de desculpas civilizadas. Aquele que detesta a convivência costuma, por defesa, demonstrar preocupação com o cão. É um falso altruísmo. Nunca confessa diretamente a sua antipatia, nunca declara a sua limitação. Pelo contrário, ele fala pelo cachorro, advoga pelo seu bem-estar, defende a sua qualidade de vida.

Quem escuta acredita que ele é amigo da Luísa Mell, sócio do Greenpeace, discípulo de São Francisco de Assis.

Inventa locuções de ventríloquo, transmitindo a ideia de que ele não tem cachorro não porque não quer, mas porque não quer fazer o cachorro sofrer. Efetua a inversão para não soar desumano.

Algumas frases típicas do personagem:

– Não suporto a possibilidade de vê-lo confinado num apartamento.
– Eu sou apaixonado por cachorro, só que não para ter em casa.
– Prender o bichinho é uma tortura. Nasceu para ser livre.
– Viajo muito e não há com quem deixar.
– Sou alérgico a pelo.
– Jamais me curei da asma.
– Não tenho tempo para passear.
– Cachorro precisa ser planejado.
– Eu é que vou acabar cuidando sozinho.

O paradoxo é: quem não deseja cachorro depois é quem mais se apega. Quem mais resiste no início mais se entrega depois.

Rouba descaradamente a coleira da esposa ou do marido ou das crianças. Passa a se oferecer para levá-lo à rua. Vigia alimentação, põe defeito no jeito em que as pessoas dão carinho, advertindo que não é assim que o cachorro fica feliz. É o primeiro a perdoar os chinelos em frangalhos, os óculos destruídos e o sofá devorado. Acompanha o animalzinho em suas visitas ao veterinário e, com indisfarçável vaidade, preenche a ficha como único responsável. Abre a porta do quarto para que ele suba em cima da cama e durma junto.

Aquele que abomina cachorro ainda não se conhece. Mas um dia descobrirá a si mesmo e que, na verdade, não sofria com o medo de contar com mais um dependente, e sim de ser dependente dele.

Todo mundo que tem cachorro começa como pai e termina como filho, entendendo que sempre é hora de brincar.

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Texto por Fabrício Carpinejar

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